[06/02/2026]
O Centro Latino-Americano de Física (CLAF) e o Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França, assinaram acordo de cooperação para a formação de uma rede latino-americana de pesquisa em física de astropartículas.
Em evento realizado no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), no último dia 27 de janeiro, o documento foi assinado pelo físico brasileiro Ulisses Barres de Almeida, diretor do CLAF e pesquisador do CBPF, e o matemático e cientista da computação francês Antoine Petit, presidente do CNRS.
A principal ideia do acordo – lançado por iniciativa do CLAF – é reforçar a colaboração internacional entre os vários experimentos localizados na América Latina e instituições vinculadas ao CNRS na área de astropartículas – este último, termo geral para se referir a partículas ou radiação que chegam à Terra do espaço, englobando basicamente raios cósmicos, raios gama e neutrinos, cujo estudo também permite o entendimento da formação e estrutura do universo (cosmologia).
Para Barres, a cooperação entre o CLAF e CNRS vai permitir a criação de “uma rede continental e uma colaboração transatlântica”, baseada não só na disseminação do conhecimento, mas também na amizade entre os povos. “O foco é a integração por meio da diplomacia científica”, disse.
Para Petit, a iniciativa fará com que se estreitem as relações entre a França e o continente, porque “o CLAF vai bem além do Brasil”, país com que o CNRS tem longo histórico de colaboração científica e cultural. “Estou bem feliz com a assinatura desse acordo”, disse.

O evento
Estendendo-se pela tarde do último dia 27 de janeiro, o evento contou, em sua abertura, com a fala do tecnologista Márcio Portes de Albuquerque, diretor do CBPF, que, depois de esboçar quadro atual de sua instituição, enfatizou como as colaborações internacionais ajudam a “estreitar os laços entre ciência, inovação e sociedade”.
Em seguida, falaram Barres, Petit e a física francesa Christelle Roy, diretora do Instituto Nacional de Física Nuclear e Física de Partículas – conhecido pela sigla IN2P3 –, vinculado ao CNRS. “Esse acordo é também grande oportunidade para a França”, disse ela.

Também fez parte da delegação francesa o engenheiro Liviu Nicu, diretor do Escritório do CNRS para a América do Sul. Segundo Barres, Nicu – que conduziu os trabalhos do encontro – “foi instrumental” para o esboço do acordo CLAF-CNRS.
Convidado pelos organizadores, esteve também presente o engenheiro Olivier Fudym, ex-adido de cooperação científica e universitária na Embaixada da França na Índia e ex-diretor do Escritório do CNRS no Rio de Janeiro (RJ).
Palestras e depoimentos
O encontro teve palestras de dois participantes. Barres fez breve histórico do CLAF, antes de comentar que, na América Latina, há uma “coleção de experimentos internacionais”, mas ainda não se chegou ao que poderia ser denominado “uma física da América Latina”.
“Temos ilhas de pesquisa, e um modelo para a integração delas pode vir da Europa” – referência à União Europeia. Segundo Barres, a colaboração assinada com o CNRS vai ajudar, por exemplo, a pôr em contato experimentos na América Latina que trabalham isoladamente, mas usam basicamente a mesma técnica para a detecção de astropartículas.
Na parte final de sua intervenção, o diretor do CLAF propôs a formação de um fórum regional e permanente de discussão de temas ligados à promoção da física na América Latina, em colaboração com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), à qual o CLAF está vinculado desde sua criação, em 1962. “Um organismo assim seria bem-vindo em um continente em que o financiamento para a ciência oscila consideravelmente”, disse.

Em sua palestra, Roy apresentou quadro geral do CNRS, que, atualmente, conta com cerca de 30 mil cientistas e mais de 1 mil laboratórios na França. Em seguida, falou sobre o IN2P3 e destacou as estratégias de colaboração com laboratórios no mundo – seis deles, na América Latina.
Sob a condução de Alain Mermet, diretor do CNRS para a Europa e exterior, o encontro foi finalizado com um quadro de depoimentos de pesquisadores que contaram com o apoio do CNRS para sua formação ou suas pesquisas. Entre outros, falaram Albuquerque – que fez seu doutorado na França –, bem como os físicos Martín Makler e Carla Bonifazi, ambos pesquisadores do CBPF.
Para Mermet, a colaboração científica promovida pelo CNRS é um “instrumento para a paz”, baseado em três pilares: “confiança, diálogo e livre circulação de ideias”.
Antes do encontro, a delegação francesa visitou instalações e laboratórios do CBPF.