CLAF propõe que o Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya seja Patrimônio Cultural da Humanidade

Postado em: 25/SET/2026 Categoria: Institucional

[25/09/2026]

Dois representantes do Centro Latino-Americano de Física (CLAF), acompanhados de um diplomata brasileiro, foram a uma montanha de altura vertiginosa na Bolívia para lançar uma ideia tão desafiadora como importante: transformar um laboratório de física que resvala as nuvens em patrimônio cultural da humanidade.

Ulisses Barres de Almeida, diretor do CLAF, Antonio Augusto Passos Videira, coordenador da ‘Unidade de Pesquisa em História da Física na América Latina’, também do CLAF, bem como o diplomata André João Rypl, secretário da Embaixada do Brasil em La Paz, visitaram o Nevado Chacaltaya, a cerca de 5 mil metros de altitude em relação ao nível do mar, para conhecer as instalações do Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya, na Cordilheira dos Andes.

A viagem dos três brasileiros ao pico faz parte da campanha lançada este ano por Barres para levar à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a proposta de transformar o laboratório andino em patrimônio cultural da humanidade.

“Chacaltaya é um dos exemplos mais notáveis da relevância mundial alcançada pela pesquisa em física em nosso continente já nos seus primórdios e um dos capítulos mais importantes de sua história. Desde a década de 1940, antes mesmo da criação de instituições emblemáticas, como o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares [CERN], o laboratório ajudou a construir pontes científicas entre a América Latina, a Europa e o Japão, servindo como um centro irradiador do desenvolvimento científico na região”, disse Barres, físico experimental e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ).

Prosseguiu Barres: “Desde então, Chacaltaya nunca cessou de funcionar como um farol que, como símbolo de um pioneirismo heroico, recorda-nos o papel que a ciência e a física tiveram na história e formação do nosso continente. Preservar e valorizar essa história é também preservar uma parte importante do patrimônio latino-americano”.

Antes, porém, as tratativas para essa iniciativa devem passar por etapas importantes: o governo boliviano deve declarar o laboratório patrimônio cultural nacional – algo que já está sendo encaminhado por autoridades do Departamento de La Paz, na Bolívia. Esses trâmites contam também com o apoio da Universidade Mayor de San Andrés (UMSA), à qual pertence o laboratório.

Os representantes do CLAF aproveitaram sua estada na Bolívia para visitar a Embaixada do Brasil em La Paz, onde foram recebidos pelo Embaixador Luís Henrique Sobreira Lopes, ocasião em que tiveram a oportunidade de apresentar a proposta e compartilhar informações sobre a história e a importância de Chacaltaya para a ciência.


Barres (esq.), Videira (centro) e Rypl, em Chacaltaya, reproduzindo foto histórica do laboratório
Crédito: Divulgação 

 

Um pouco de história

O Nevado Chacaltaya tem ‘currículo’ mais do que suficiente para pleitear o título da Unesco: suas vastas contribuições à ciência (especialmente, à física de raios cósmicos) contam uma história que começou a ganhar reconhecimento internacional ainda na segunda metade do século passado.

Para entender esses aportes ao desenvolvimento da ciência, é preciso retroceder a 1947, quando, em Bristol (Reino Unido), a equipe do físico experimental britânico Cecil Powell (1903-1969) detectou o méson pi, partícula subatômica que serve como ‘cola’ para prótons e nêutrons, proposta, ainda em 1934, pelo físico japonês Hideki Yukawa (1907-1981), que ganhou o Nobel de Física de 1949 por essa importante previsão teórica.

A descoberta da equipe de Bristol – que deu a Powell o Nobel de Física de 1950 – é considerada uma das mais importante da física do século passado – e contou com participação decisiva de um então jovem físico brasileiro, César Lattes (1924-2005), que, à época, trabalhava naquele país.

Na busca por mais eventos semelhantes, Lattes propôs expor detectores (chapas fotográficas especiais) a altitudes ainda mais elevadas – o experimento de Bristol foi feito no Pic du Midi, no Pirineus franceses, com cerca de 2,8 mil m de altura. Quanto mais elevada a posição em relação ao nível do mar, maior é o fluxo de raios cósmicos, que são núcleos atômicos que bombardeiam a atmosfera terrestre a todo instante, causando, com esse choques, o surgimento de novas partículas (entre elas, o méson pi ou, modernamente, píon).

Em uma mapa na biblioteca da Universidade de Bristol, Lattes encontrou Chacaltaya, com cerca de 5,5 mil m. Outra vantagem do novo local: o monte ficava perto (algo como 20 km) da sede de governo da Bolívia, La Paz, o que facilitava o deslocamento até lá.

Em sua primeira visita ao Nevado Chacaltaya, Lattes encontrou lá uma estação meteorológica de proporções modestas. As chapas expostas naquele monte renderam centenas de novos eventos relacionados ao méson pi – cerca de 30 deles ‘completos’, ou seja, em que essa partícula de desintegra (tecnicamente, decai) em outra, o múon, um ‘primo’ pesado do elétron.

Lattes viu grande potencial no Chacaltaya – afinal, as energias dos raios cósmicos naquelas altitudes podem ser de 10 mil a 100 mil vezes mais potentes do que os patamares alcançados, ainda hoje, nas colisões ocorridas em aceleradores, como o LHC (sigla, em inglês, para Grande Colisor de Hádrons), no CERN, com sede na Suíça.

Depois da publicação dos resultados obtidos com a exposição das chapas no Nevado Chacaltaya, em outubro de 1947, na prestigiosa revista britânica ‘Nature’, aquela montanha entrou no foco de atenção da comunidade internacional de físicos. E, como consequência, vários países demonstraram interesse pelo sítio – exemplo típico foi a instalação de experimento pelos EUA no local.

Lattes percebeu que poderia ‘perder’ o local para outros países. Isso o fez assinar, em regime de urgência, um acordo de colaboração internacional, no início da década de 1950, com a UMSA de La Paz.

Nascia, assim, o Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya – que, poucos sabem, era uma Divisão de Física vinculada ao CBPF, instituição fundada em 15 de janeiro de 1949, no Rio de Janeiro (RJ). 


Vista atual do Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya, com destaque para o pórtico histórico
Crédito: Ulisses Barres de Almeida/CBPF


Desde então, vários experimentos foram feitos naquele monte. Vale destacar alguns deles, voltados ao estudo da radiação cósmica: a chamada Missão Unesco, colaboração internacional que, no início da década de 1950, levou a Chacaltaya uma câmara de nuvens (detector), doada ao Brasil pela Universidade de Chicago (EUA); a CBJ (Colaboração Brasil-Japão), que, iniciada em 1962, se estendeu por cerca de 30 anos; do mesmo período, o BASJE (sigla, em inglês, para Experimento Conjunto Boliviano sobre Chuveiros Aéreos); e, atualmente, o Alpaca (Detector de Partículas Andino de Larga Área para a Física de Raios Cósmicos e Astronomia), também em colaboração com o Japão.

Essa longa lista de serviços prestados à física levou o CLAF a iniciar um projeto sobre a história do Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya, com o qual pretende resgatar e organizar a trajetória de um dos mais antigos e importantes laboratórios localizados na região latino-americana.

Para Videira, “esse laboratório pode ser compreendido como uma das primeiras tentativas, no campo da ciência natural, do estabelecimento de uma rede de colaboradores no domínio dos raios cósmicos”.

Liderada pela ‘Unidade de Pesquisa em História da Física na América Latina’, do CLAF, “essa iniciativa reunirá historiadores da ciência, físicos, diplomatas, agentes culturais, autoridades universitárias e governamentais, para convencer a Unesco a declarar Chacaltaya patrimônio histórico e científico da humanidade”, completou Videira, historiador da ciência ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro e ao CBPF.

 UMSA: 60 anos da carreira de física

Na recente visita à Bolívia, Barres e Videira participaram da comemoração dos 60 anos da criação da graduação em física na Faculdade de Ciências Puras e Naturais da UMSA. O evento contou com a presença da reitora da universidade, María Eugenia García Moreno, do vice-reitor, Tito Valerio Estévez Martini, e do decano da Faculdade de Ciências Puras e Naturais, Aldo Ramírez, entre outras autoridades acadêmicas e representantes dos estudantes e professores.

Para além da área de raios cósmicos, a comemoração destacou a contribuição dos experimentos em Chacaltaya para as pesquisas, tanto teóricas quanto aplicadas, em física atmosférica e geofísica, por exemplo. 


Da esq. para a dir., Barres, Estévez, García e Videira, na comemoração na UMSA
Crédito: UMSA


Em seu discurso, o vice-reitor da UMSA enfatizou que a carreira de física naquela instituição “tem demonstrado que a ciência não pode estar afastada da realidade do país”, destacando “a importância de continuar fortalecendo a pesquisa e a formação científica para que o conhecimento gerado pela universidade possa contribuir para compreender nossos fenômenos naturais, enfrentar desafios nacionais e construir novas possibilidade para a Bolívia”.

O discurso de Barres ressaltou a longa colaboração na área de física entre Brasil e Bolívia. Aproveitou a oportunidade para dizer que, este ano, o CLAF está pondo em marcha a criação de uma rede de Cátedras Latino-americanas de Física em instituições estratégias no continente, para atuarem como polos de cooperação e integração na América Latina. “Quero anunciar, hoje, que é desejo do CLAF que a UMSA – e, em particular a carreira de física – seja uma das instituições que alberguem essa cátedra, mantendo um vínculo especial com o Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya”, disse Barres.

O diretor do CLAF terminou seu discurso com as seguintes palavras: “Por isso, em colaboração com nossos colegas da UMSA e com os delegados da Bolívia no CLAF, os convido a considerar este dia de celebrações históricas também como o primeiro dia de uma nova rede de relações entre o CLAF e a UMSA, para construir uma era renovada da física latino-americana”.

No evento, Barres e Videira foram agraciados com presentes comemorativos, oferecidos pela UMSA.

Mais informações:

Discurso do diretor do CLAF proferido durante a comemoração do 60º aniversário do Curso de Física da UMSA:  Celebración de los 60 años de la Carrera de Física

UMSA (Vicerrectodado): https://vicerrectorado.umsa.bo/es/cmem/-/asset_publisher/WrjN8OI4d8qk/content/60-anos-de-la-carrera-de-fisica-una-historia-de-ciencia-investigacion-y-servicio-a-bolivia

CLAF: https://claffisica.org.br/

UMSA: https://www.umsa.bo/

Física – Faculdade de Ciências Puras e Naturais: https://www.fiumsa.edu.bo/

SDDEPT: https://www.facebook.com/photo?fbid=122124531981358979&set=pcb.122124532305358979