[10/10/2026]
A campanha para promover o Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya a patrimônio cultural da humanidade junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) ganhou força na Bolívia.
A ideia, lançada este ano pelo físico experimental Ulisses Barres de Almeida, diretor do Centro Latino-Americano de Física (CLAF), no Rio de Janeiro (RJ), foi acolhida com entusiasmo pela Universidade Maior de San Andrés (UMSA) – instituição à qual o laboratório pertence –, que mobilizou autoridades governamentais, cientistas e estudantes para a campanha.
No último dia 26 de setembro, uma comitiva liderada pela UMSA foi àquele laboratório, localizado a cerca de 5,2 mil metros de altitude em relação ao nível do mar, na cordilheira dos Andes.
Na cerimônia, foi apresentado o logotipo da campanha. Na ocasião, falou a reitora da UMSA, a química María Eugenia García Moreno, para um público de aproximadamente 100 pessoas. Ela agradeceu aos países e cientistas que têm acreditado na ciência e nos pesquisadores bolivianos. “Este é um dia muito especial, não só para a Universidade Maior de San Andrés, não só para a Bolívia, mas também para a ciência do mundo inteiro. A partir de hoje, lançamos a campanha do Laboratório de Chacaltaya como patrimônio da Unesco”, disse García.
Entre os presentes, estava o embaixador do Brasil em La Paz, Luís Henrique Sobreira Lopes, e o encarregado de negócios da Embaixada do Japão em La Paz, Shigetomo Maruhashi – Japão e Brasil têm longa tradição de colaboração com a Bolívia em experimentos em Chacaltaya.
A campanha junto à Unesco – que já tem também página web – deve, porém, cumprir uma etapa anterior: o laboratório deve ser declarado patrimônio cultural nacional, iniciativa que já conta com o apoio público, por exemplo, do Governo do Estado de La Paz.

O ‘pi’ do logotipo
O logotipo da campanha tem como destaque a letra grega pi (π), circundada por elementos que lembram um átomo com seu núcleo, com o Monte Chacaltaya ao fundo. Traz também os escritos: “Laboratório de Física Cósmica de Chacaltaya – A montanha que observa o universo”.
A letra grega é referência a uma das descobertas mais importantes da física do século passado e para a qual Chacaltaya deu contribuição importante: o méson pi (ou, modernamente, píon), partícula subatômica que mantém o núcleo atômico coeso, mediando uma força que mantém prótons e nêutrons unidos.

O píon foi detectado em 1947 pela equipe de pesquisadores da Universidade de Bristol (Reino Unido) e contou com participação decisiva do então jovem físico brasileiro César Lattes (1924-2005).
Em meados daquele ano, Lattes viajou da Inglaterra para a Bolívia, para expor mais detectores (chapas fotográficas especiais) no Monte Chacaltaya. O brasileiro trouxe de lá cerca de 30 novos traços de píons nas chapas fotográficas – até aquele momento, o grupo britânico havia detectado só dois desses mésons, por meio de exposições no Pic du Midi, nos Pirineus franceses.
Os píons ‘capturados’ em Chacaltaya serviram para dar precisão ao cálculo da massa dessa partícula – algo que não era possível só com dois eventos. Por esses trabalhos, o líder do grupo de Bristol, o físico britânico Cecil Powell (1903-1969), ganhou o Nobel de 1950.
Páginas e notícias
A página web elaborada especialmente para a campanha pró-Chacaltaya – ainda em construção, alertam os autores – já está disponível na internet (ver ‘Mais informações’). Com versão também em português, ela traz, por exemplo, uma cronologia detalhada sobre a história do laboratório; texto sobre a candidatura à Unesco; detalhes dos experimentos que estão, neste momento, em atividade no local – dois deles são o Alpaca (rede terrestre e subterrânea de detectores para o estudo de raios cósmicos) e o GAW/CHC (estação de monitoramento atmosférico da Organização Meteorológica Mundial) – esta última “uma das pouquíssimas estações globais de grande altitude do planeta”.
Na página, pode-se ler também declaração da Comissão de Raios Cósmicos da União Internacional de Física Pura e Aplicada (IUPAP), ainda de 28 de fevereiro de 1964, que atesta a importância histórica tanto de Chacaltaya (Bolívia) quanto Kolar (Índia): “[...] a Comissão da IUPAP considera que estes dois sítios de experimentação são essenciais para a pesquisa neste campo científico.”
O CLAF também preparou logotipo – com elementos fotográficos – para seu ‘Projeto Chacaltaya’, sob responsabilidade de sua ‘Unidade de Pesquisa em História da Física na América Latina’. Um dos objetivos da iniciativa – que vai reunir historiadores da ciência, físicos, diplomatas, agentes culturais, autoridades universitárias e governamentais – é concentrar e sistematizar material histórico, para subsidiar a campanha junto à Unesco.

Além do logotipo e da página, a UMSA também preparou, para a ocasião, nas dependências do laboratório, uma exposição com a história da ciência feita naquela montanha nas últimas oito décadas.
O evento de 26 de setembro contou com ampla cobertura da mídia boliviana (ver ‘Mais informações’).
Mais informações:
Página da campanha na USMA: https://chacaltaya-lfc.umsa.bo/portada_PT.html
Embaixada do Japão: https://www.bo.emb-japan.go.jp/itpr_ja/11_000001_02906.html
Levantate Bolivia: https://www.facebook.com/watch/?v=1607242150840904
RTP Bolivia: https://www.facebook.com/reel/4384321528496201
Proyeto Tuya: https://www.facebook.com/reel/1080405498242638
SM: https://www.facebook.com/reel/2162454157710083
CLAF: https://claffisica.org.br/
UMSA: https://www.umsa.bo/
Faculdade de Ciências Puras e Naturais (UMSA): https://www.fiumsa.edu.bo/
CERN Courier: https://cerncourier.com/a/boost-for-andean-cosmic-ray-laboratory/